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Avó-Universo

Ao voltar para o Rio Negro, terra de onde sou filho, minha esperança é rever e ouvir minha avó. Dona Felícia, senhora de corpo forte, voz grave, olhar medusiano. Doce e acre. Após quase uma década, meu coração em afeto espera revê-la mais uma vez.

 

Whéromi é quem conta como éramos antes do mundo existir pra nós, é quem de posse do fio da História tece lenta e pragmática toda memória que nossos olhos não chegaram a tempo para gravar. Avó, dona de segredos e saberes que ouvidos atentos precisam capturar cotidianamente. Com minha avó consigo imaginar como minha família chegou no Padauiri, lugar onde ela nasceu; no Jacitara, lugar onde minha mãe nasceu; em Darí, lugar onde eu nasci. Com ela aprendo a tratar a caça e fazer fogo, a nadar e colher tucumã. E também aprendo sobre minha origem, lugar e pertencimento.

 

Nhíromi me ensina que antes dela e de outras avós humanas, quem deu origem a todos os tipos de gente foram as avós ancestrais que vivem no cosmos. Avó-Sucuriju, Avó-Onça, Avó-Anta, Avó-Cotia, Avó-Garça e tantas outras. O cosmos foi parido por várias Avós-Universos, de onde hoje eu busco retorno, paciência e escuta. Pois é onde eu posso confiar meus pés e meu espírito. É a máter para onde eu posso voltar.

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Denilson Baniwa nasceu em 1984 na aldeia Darí, no Rio Negro, Amazonas. Sua trajetória como artista inicia-se a partir das referências culturais de seu povo já na infância. Na juventude, o artista inicia a sua trajetória na luta pelos direitos dos povos indígenas e transita pelo universo não- indígena apreendendo referenciais que fortaleceriam o palco dessa resistência. Denilson Baniwa é um artista antropófago, pois apropria-se de linguagens ocidentais para descolonizá-las em sua obra. O artista em sua trajetória contemporânea consolida-se como referência, rompendo paradigmas e abrindo caminhos ao protagonismo dos indígenas no território nacional.